Crédito: Gustavo Moreno/STF O depoimento do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, ao Supremo Tribunal Federal (STF), em 30 de dezembro de 2025, foi conduzido sob diretrizes elaboradas pelo relator do caso, ministro Dias Toffoli. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o objetivo central das perguntas era identificar possíveis omissões e contradições na atuação do Banco Central durante o processo que culminou na liquidação do banco Master, controlado por Daniel Vorcaro.
De acordo com o gabinete de Toffoli, os vídeos das oitivas e da acareação foram posteriormente liberados, e as linhas de investigação seguem os elementos reunidos pelos órgãos responsáveis. O ministro preparou um roteiro de questionamentos voltado à apuração de eventuais falhas na fiscalização do BC, especialmente no período anterior à liquidação do Master, decretada em novembro de 2025. À época, o banco enfrentava um desequilíbrio financeiro significativo, com R$ 127 milhões em obrigações imediatas e apenas R$ 4 milhões em caixa.
Embora os vídeos dos depoimentos estivessem sob sigilo, Toffoli autorizou a divulgação do material em 29 de janeiro. Durante os interrogatórios, apenas duas das perguntas sugeridas pelo ministro foram efetivamente feitas pela Polícia Federal, o que gerou desconforto institucional entre a corporação e o STF.
A atuação ativa de Toffoli no caso já havia sido alvo de críticas de juristas, sobretudo pela elaboração de orientações que teriam influenciado depoimentos, incluindo o de Daniel Vorcaro. No dia da oitiva, Ailton de Aquino aguardou mais de dez horas para prestar esclarecimentos e, inicialmente, foi impedido de depor por videoconferência, sendo exigida sua presença física no STF — decisão posteriormente revista pelo ministro.
Além disso, Toffoli determinou a realização de uma acareação entre Vorcaro e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, também investigado. O confronto de versões ocorreu na mesma data do depoimento de Aquino.
Entre os principais pontos do roteiro elaborado por Toffoli estavam questionamentos sobre quando o Banco Central identificou os primeiros indícios de que carteiras de crédito consignado do Master, vendidas ao BRB por R$ 12,2 bilhões, seriam fraudulentas. Para o ministro, a ausência de uma data precisa comprometeria a análise da tempestividade da atuação do BC — conceito jurídico que avalia se atos foram praticados dentro do prazo adequado.
Toffoli também levantou suspeitas sobre uma possível demora do BC em detectar irregularidades e citou uma nota oficial divulgada em fevereiro de 2025, na qual o órgão informou que não havia realizado novos exames nas carteiras do Master, apesar de indícios prévios de fraude. Na avaliação do ministro, isso poderia caracterizar uma interrupção consciente da fiscalização.
Segundo o Estadão, integrantes do Banco Central demonstraram incômodo com o teor das perguntas, avaliando, sob reserva, que o tom se aproximava da linha adotada pela defesa de Vorcaro. Em depoimento, o banqueiro afirmou que o BC não teria atuado com a rapidez necessária e que a liquidação do banco teria causado prejuízos ao mercado financeiro.
O interrogatório também foi marcado por tensões entre a delegada da Polícia Federal Janaína Palazzo e o juiz auxiliar do STF, Carlos Vieira Von Adamek. Houve divergências sobre a condução das oitivas e sobre a imposição de perguntas elaboradas pelo gabinete do ministro. Em ao menos dois momentos, Toffoli foi consultado por telefone e determinou que suas orientações fossem seguidas.
Ao final, apenas dois questionamentos do roteiro foram realizados. Um deles, sobre medidas futuras do Banco Central após a liquidação do Master, foi contestado pela defesa de Ailton de Aquino, que classificou a pergunta como vaga e especulativa, alegando que decisões futuras dependeriam da diretoria do BC.



