Crédito: Léo de França Um advogado de Mato Grosso do Sul é alvo de investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Estadual, por suspeita de integrar a chamada “Sintonia dos Gravatas”, núcleo jurídico da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). O profissional já havia sido denunciado em 2024 por envolvimento em fraude de concurso público, no âmbito da Operação Sommelier.
De acordo com o MPMS, a expressão “gravatas” é utilizada para identificar advogados e outros profissionais do Direito cooptados pela facção. No esquema, o investigado teria atuado como intermediário de comunicações ilegais, transportando mensagens conhecidas como “salves” entre lideranças do PCC presas e integrantes em liberdade.
As apurações apontam que o advogado era responsável por articular a assistência jurídica de membros da organização criminosa e por gerenciar ordens de ao menos três líderes da facção, dentro e fora do sistema prisional. Diligências foram realizadas em Campo Grande, Araraquara (SP) e no litoral de Santa Catarina, no município de Itajaí.
A ligação com o PCC foi identificada durante os desdobramentos da Operação Sommelier, deflagrada em 2024 para investigar fraudes em licitações e outros crimes no município de Itaporã. Durante buscas na residência do advogado, os investigadores encontraram indícios que apontam para a atuação em uma rede criminosa que unia serviços jurídicos ilícitos, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
Segundo o Gaeco, o advogado também integrava uma estrutura logística de tráfico de entorpecentes, realizando o transporte semanal de cocaína de Ponta Porã para estados como Paraná e Minas Gerais. A droga era escondida em compartimentos como tanques de combustível e estepes. Para dificultar a identificação, ele utilizava múltiplas contas em aplicativos de mensagens, registradas com nomes falsos.
Em 13 de outubro de 2024, o investigado foi preso em flagrante no interior de São Paulo, após ser abordado conduzindo um veículo que transportava 22 quilos de pasta-base de cocaína ocultos no tanque. Ele foi condenado pela Justiça da Comarca de Mirassol (SP) a 6 anos, 6 meses e 3 dias de prisão em regime fechado, além do pagamento de multa. Atualmente, cumpre pena em Araraquara e também teve a prisão preventiva decretada na nova investigação.
A denúncia em curso na 3ª Vara Criminal de Campo Grande aponta ainda a participação de uma mulher, responsável pela administração financeira e comercialização de drogas, que está foragida. Outros três integrantes do PCC também foram denunciados, sendo um deles preso no complexo penitenciário da Gameleira, na Capital, e dois ainda não localizados.
As investigações revelam que o advogado mantinha contato com outros profissionais do Direito ligados ao PCC e envolvidos em atividades que extrapolavam os limites legais. Entre os líderes citados na apuração, há um integrante da facção que chegou a ser investigado por suposto plano de atentado contra autoridades em Mato Grosso do Sul, com menções explícitas a ataques em um bilhete apreendido no sistema prisional. Apesar das suspeitas, ele acabou absolvido.
A Operação Sommelier também apura irregularidades em licitações para a realização de concursos públicos, incluindo suspeitas de direcionamento do certame e superfaturamento. Durante buscas autorizadas pela Justiça, o Gaeco apreendeu na residência do advogado documentos relacionados ao concurso da Prefeitura de Douradina, incluindo um gabarito impresso, anotações manuscritas, materiais da empresa contratada, além de R$ 64,7 mil em dinheiro e oito aparelhos celulares.
A reportagem procurou a Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul (OAB/MS), mas não obteve retorno até o fechamento do material. O espaço permanece aberto para manifestação.



