Após meses marcados por incertezas, a trajetória de Luiz Otávio Santos Nunez, de 19 anos, passou a incluir um novo elemento: a possibilidade de recuperação neurológica. O jovem foi submetido a uma cirurgia experimental com polilaminina, substância que vem sendo estudada por seu potencial de estimular a regeneração de conexões nervosas em pacientes com lesões na medula espinhal.
O procedimento ocorreu no Hospital Militar de Campo Grande, na última quarta-feira (21), e durou cerca de 40 minutos. Poucos dias depois, já em acompanhamento domiciliar e fisioterapêutico, Luiz começou a perceber respostas corporais que não existiam antes da intervenção, o que tem fortalecido a expectativa de evolução clínica.
Lesão grave e mudança abrupta de vida
Luiz teve a rotina interrompida em outubro de 2025, quando foi atingido por um disparo acidental de arma de fogo, que causou uma lesão medular cervical severa. O trauma resultou em tetraplegia e exigiu internação prolongada, além de reestruturação completa da vida pessoal e familiar.
Durante o período hospitalar, que se estendeu por aproximadamente três meses, a família buscava alternativas que pudessem ampliar as chances de recuperação do jovem, diante de um quadro considerado irreversível pelos tratamentos convencionais.
Descoberta da polilaminina e autorização judicial
A possibilidade do uso da polilaminina surgiu apenas no fim de 2025, quando os pais tomaram conhecimento da substância por meio de uma reportagem jornalística. A proteína, extraída da placenta, atua como suporte para que neurônios lesionados encontrem novas rotas de comunicação, o que pode resultar na retomada parcial de funções motoras.
Por se tratar de um medicamento ainda não registrado, foi necessário recorrer a um processo judicial para autorizar o chamado uso compassivo. A liberação envolveu análises médicas, pareceres técnicos e aval da Anvisa, o que adiou a cirurgia inicialmente prevista.
Mesmo com o adiamento, a família manteve a decisão de seguir com o tratamento assim que a autorização fosse concedida.
Procedimento e acompanhamento especializado
A cirurgia foi realizada por uma equipe composta por especialistas de diferentes instituições, incluindo profissionais do Hospital Militar, do Hospital Souza Aguiar (RJ) e pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Segundo os médicos, o perfil clínico e a idade do paciente são fatores positivos para a resposta ao tratamento. Luiz segue sob monitoramento contínuo e passou a intensificar a fisioterapia, considerada essencial para potencializar os efeitos da proteína.
Pouco tempo após a aplicação, o jovem passou a notar movimentos involuntários e respostas visuais aos estímulos, algo inexistente antes da cirurgia.
Procedimento inédito no estado
A aplicação da polilaminina em Luiz é considerada uma das primeiras no Mato Grosso do Sul. A pesquisa é liderada pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, em parceria com o Laboratório Cristália, e recebeu recentemente aval do Ministério da Saúde e da Anvisa para avançar nas fases de estudo.
Apesar dos resultados iniciais positivos, o medicamento ainda precisa passar por ensaios clínicos mais amplos, definição de dosagem, avaliação de riscos e posterior solicitação de registro sanitário para uso no SUS e na rede privada.
Até a conclusão dessas etapas, o acesso permanece restrito a decisões judiciais específicas.
Esperança cautelosa
Não há garantia de que Luiz voltará a andar, mas os profissionais envolvidos consideram realista a expectativa de recuperação parcial dos movimentos, o que pode representar ganhos significativos de autonomia e qualidade de vida.
A família acompanha cada avanço com cautela, ciente de que o processo é longo e depende de múltiplos fatores. Ainda assim, o tratamento trouxe algo que não existia nos primeiros meses após o acidente: perspectiva.
A evolução do jovem segue sendo acompanhada por equipes médicas locais e pelos pesquisadores responsáveis pelo estudo.



